MÃE SÓ TEM UMA

Mãe é uma palavra que, universalmente, faz pensar em proteção, generosidade, amor sem limite. O país onde nascemos é a “mãe-pátria”, nossa pátria é a “mãe gentil”, nosso idioma é a “língua-mãe”, coração benevolente é “coração de mãe”. Se Eva foi a “mãe dos homens”, Maria será sempre venerada como a “Mãe de Deus”. Tendo escolhido tomar nossa carne e nascer criança, Deus quis também para si uma Mãe. Virgem e Mãe. Essa aparente contradição não seria um capricho do Filho, mas uma espécie de “reserva de domínio”, de um amor tão infinito quanto impenetrável a um concorrente. Para todo filho sua mãe é “virgem”, e a ofensa máxima é chamá-la de puta.

Cada mãe com seu filhinho reconstitui esse mistério, tornando-se ambos uma só carne, um só amor. Talvez o único amor sem barreira, numa geração mútua, um existindo somente porque o outro existiu. A mãe inaugura o filho no parto, ele lhe dá existência ao ser gerado. A placenta que os une é um sistema de vasos comunicantes. É para suprir-lhe oxigênio que ela respira, é para nutri-lo que ela se alimenta, e continuará a doar-se em gotas de leite que serão, até o fim dos tempos, o símbolo máximo da ternura humana e da doação não exigente.

A mãe gesta o filho antes de concebê-lo. É para ele que ela se deixará seduzir por alguém, e a este oferecerá o terreno para a semeadura do “fruto de suas entranhas”. É para ter esse filho que ela se cuida, se penteia, se perfuma a vida inteira. Quando ele chega, ela dedica-se inteirinha a exercer a “maternagem”, ofício para o qual a natureza a provê de umas gordurinhas estratégicas, ancas largas e tetas, esses alambiques do licor da vida. Convocada à condição de replicante da espécie, ela relembra cantigas imemoriais, seus braços se arqueiam em forma de berço, seu caminhar torna-se mais pausado, mais cuidadoso, porque agora ela é a portadora de um filho.

Do mais humilde barraco ao castelo mais fidalgo, ela se torna a rainha-mãe. Sua profissão diuturna é ser mãe – títulos, diplomas, incursões filosóficas, passam para a “área de transferência”. Quando a fatalidade ou a doença aborta esse plano, seu útero entoa um lamento de decepção.

Historicamente, o papel de mãe teve seus dias de alheamento, os filhos eram muitos, melhor mandá-los ao interior para alguém criar. Ou, ciosa dos peitos formosos e jovens, alugava mães de leite, amas, mães pretas, mães brancas. Seu papel se resumia em ver a criança pela manhã e à noite, dar o “Deus te abençoe”. As casas tinham muitas mulheres: sua própria mãe, tias, irmãs, empregadas. E uma cozinha grande com quintal, onde meninos e galinhas se misturavam em algazarra. Ela dava as ordens e, ao fim da tarde, chamava os meninos: olha o leitinho quente, todo mundo lavar os pés para dormir. De vela na mão, ou lamparina, beijava um e outro de leve, e a casa silenciava em paz.

Durante as guerras, ela passou a fazer o trabalho dos homens ausentes. A fábrica descobriu-a e decretou que não mais ficaria em casa. Ela voltava exausta, mas acordava cedo ao apito da tecelagem, onde consumia os dedos, as costas curvadas sobre o tear. As indústrias de leite em pó exultaram. Na Alemanha, foi incentivada a produzir muitos filhos para a pátria, filhos que iriam morrer e deveriam ser substituídos. Criou-se o Dia das Mães para compensá-la e o jardim de infância para os babies, enquanto ela trabalhava.

Pediatras é que atentaram para a importância do aleitamento materno, peitando a indústria da mamadeira, que foi chamada de “baby killer”. O Estado se apropriou da ideia e lançou campanhas para que as mães se orgulhassem de amamentar. Sua jornada de trabalho tornou-se dupla, tripla. Criou-se a licença-maternidade, para desespero dos empregadores. Alguns países da Europa expandiram a licença até nove ou doze meses, considerando o aleitamento como serviço prestado à nação. Mas nada aconteceu num estalo, houve resistência e necessidade de muito incentivo:

“Foi uma verdadeira campanha a fim de recriar o amor materno, há tanto tempo desaparecido. O amor materno adquire, então, novo conceito, com valores naturais e sociais favoráveis à espécie e à sociedade. Todo esse incentivo às mães era no sentido de salvar as crianças pequenas, com alta mortalidade, com o fim de aumentar o número de seres humanos, que constituía a riqueza do Estado. Para conseguir tal intento, foi preciso convencer as mulheres a voltarem às suas funções de mães. Foi aí que entraram em ação educadores, moralistas e médicos, desenvolvendo os mais primorosos argumentos para que as mulheres amamentassem seus filhos ao seio. Eram palavras dirigidas aos pais e às mães, em termos não de obrigações ou sacrifícios, mas de amor, felicidade e igualdade”. (Orlando Orlandi in: Teoria e Prática do Amor Materno, Zahar, 1985)

Entre nós, a “profissão” de mãe estabeleceu-se com vigor a partir das últimas décadas. Os pais aderiram à idéia e apareceu o “casal grávido”. Hoje, ser mãe é um projeto de vida sujeito a cursos, debates e muitas publicações. Em torno dela e do filho criou-se uma indústria da maternidade, com mil e um produtos para a gestante e seu bebê. Ela passou a expor a barriga, a deixar filmar o parto, a contratar decoradores e a fazer de cada aniversário um evento longamente planejado. A sociedade conferiu-lhe o papel de “incansavelmente mãe”. Sozinhas ou acompanhadas, serão definidas e julgadas pelos resultados bons ou maus que a prole apresentará ao mundo. No meio de tantos pitacos pedagógicos e da propaganda a que é submetida, cobrando-lhe responsabilidades e onipresença, vejo-a sonhando com um break, um tempo para si. Quem sabe, ser sua própria mãe de vez em quando. Mas, mãe só tem uma. Que é ela mesma: a mãe do seu filho.

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